ESPERANÇA EM MEIO AO SOFRIMENTO

Nos capítulos 4 e 5 do Evangelho de Marcos, encontramos quatro milagres de Jesus. Esses milagres são uma “avant-première” (primeira apresentação) do Reino de Deus. No primeiro, Jesus acalma uma tempestade; no segundo, Jesus liberta um endemoninhado; no terceiro, Jesus cura uma mulher; e no quarto, Jesus ressuscita a filha de Jairo. Logo, observemos esses dois últimos milagres da perspectiva de Jairo.

Foto: Jan Tinneberg/Unsplash

Jesus é expulso da região dos gerasenos e volta de barco para a outra margem do lago. Ali, ele é acolhido por uma grande multidão. No meio dessa grande multidão estão duas pessoas que possuem muitas diferenças e uma semelhança. Um homem e uma mulher. O homem é identificado como Jairo e a mulher nem sequer é identificada. Jairo é o importante dirigente da sinagoga e a mulher é a insignificante excluída da sinagoga. Jairo é rico e a mulher tornara-se pobre. Jairo se aproxima de Jesus pela frente, de maneira extravagante, e a mulher se aproxima de Jesus por trás, de maneira discreta. Mas tanto Jairo quanto a mulher se aproximam de Jesus em sofrimento profundo e em total desesperança. Jairo tem uma filha única, de doze anos, que está morrendo. A mulher, há doze anos, sofre com uma hemorragia incurável. Assim, Jairo e a mulher têm em Jesus sua única e última esperança. Em situações de sofrimento profundo descobrimos que Jesus é a nossa única e última esperança. Nessas situações, precisamos tomar três atitudes.

A primeira atitude é aproximar-se de Jesus. Jairo aproxima-se, vê Jesus, prostra-se aos seus pés e implora pela cura da sua filha. Jairo é um daqueles que conspiraram contra Jesus para matá-lo. Mas agora, encontra-se em uma situação de sofrimento profundo. Ele nada pode fazer para salvar a vida da sua própria filha. Assim sendo, humilhado, Jairo decide aproximar-se de Jesus. “Minha filha está morrendo! Vem, por favor, e impõe as mãos sobre ela, para que seja curada e que viva”, Jairo pede a Jesus. Jesus ouve aquele pedido desesperado, não diz nada e vai com Jairo.

Assim como Jairo, em meio ao sofrimento, somos desafiados a aproximarmo-nos de Jesus. À medida que nos aproximamos dele, descobrimos que a humilhação do sofrimento pode trazer uma nova perspectiva sobre nós mesmos, sobre as pessoas e sobre a vida. Descobrimos também que o sofrimento profundo pode ser uma excelente oportunidade para nos aproximarmos de Deus. Descobrimos ainda que o silêncio temporário de Deus pode significar sabedoria ao invés de inoperância.

A segunda atitude é esperar por Jesus. Da beira do lago à casa de Jairo, Jesus é acompanhado pela multidão, que o comprime. No meio dessa multidão está uma mulher que sofre de hemorragia. Essa mulher se sente impura e abandonada, tanto por Deus quanto pela sociedade. Ela gasta tudo o que tem com médicos e só piora. Quando ouve falar de Jesus, ela pensa: “Se eu tão somente tocar em seu manto, ficarei curada”. Então, é exatamente isso que ela faz. No meio da multidão, chega por trás, toca no manto de Jesus e fica imediatamente curada. No mesmo instante, Jesus sente que dele sai poder, vira-se para a multidão e pergunta: “Quem tocou em meu manto?”. Os discípulos pensam que essa pergunta é uma piada. Tremendo, a mulher se reaproxima, prostra-se e conta-lhe toda a verdade. Jesus declara: “Filha a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento”.

Aqui uma pergunta se faz necessária: o que Jairo está fazendo enquanto tudo isso acontece? Ele está esperando por Jesus. Enquanto a mulher curada não cabe em si de alegria, Jairo não cabe em si de aflição. Ele sabe que este “tempo perdido” pode custar a vida da sua filha. Assim como Jairo, em meio ao sofrimento, somos desafiados a esperar por Jesus. À medida que esperamos por ele, descobrimos que não somos os únicos que sofrem neste mundo. Descobrimos também que enquanto esperamos pela ação de Deus em nosso favor, ele permanece conosco. Descobrimos ainda que Deus nunca se atrasa, porém, faz tudo quando quer, como quer e a quem quer.

A terceira atitude é confiar em Jesus. Enquanto Jesus ainda está falando com a mulher, chegam algumas pessoas da casa de Jairo com a notícia que sua filha morreu e que, por isso, ele não precisa mais incomodar o mestre. Jesus, todavia, ignora com­pletamente essa notícia e diz a Jairo: “Não tenha medo; tão somente creia”. De agora em diante, só Pedro, Tiago e João seguem com Jesus. Eles chegam à casa de Jairo e encontram um alvoroço, com gente chorando e se lamentando em alta voz. Ao entrar na casa, Jesus faz uma pergunta provocante e uma afirmação chocante: “Por que todo este alvoroço e lamento? A criança não está morta, mas dorme”. Ouvindo isso, aqueles que choravam começam a rir de Jesus. Jesus os expulsa da casa, toma consigo o pai e a mãe da criança, e os três discípulos que estavam com ele, e entra no lugar onde o corpo da menina fora colocado. Ali, Jesus a toma pela mão e declara: “Talita cumi!”, que significa “menina, eu lhe ordeno, levante-se!”. Ao ouvir essas doces palavras de Jesus, a menina se levanta e anda. Por fim, Jesus ordena a todos que não contem nada a ninguém e manda os pais darem comida à menina.

Assim como Jairo, em meio ao sofrimento, somos desafiados a confiar em Jesus. À medida que con­fiamos nele, descobrimos que enquanto o alívio do nosso sofrimento não chega, o que está ruim pode piorar. Descobrimos também que embora as más notícias afetem as nossas emoções, elas não podem afetar a nossa fé. Descobrimos, ainda, que o sofrimento faz parte da nossa história, contudo jamais terá a palavra final.

Que Deus, por sua graça, renove a nossa esperança em meio ao sofrimento!

Luiz Felipe Xavier

O EVANGELHO

Deus é bom e tem um plano maravilhoso para a humanidade. O amor bondoso de Deus está expresso no fato de ter criado o mundo e cada pessoa com possibilidade de desfrutar toda a beleza e graça implícita na criação. Deus deseja se relacionar com cada pessoa, trazendo sua bênção e graça sobre todo o mundo.

A pergunta que surge naturalmente é: por que o mundo, então, é marcado por violência, desigualdade e injustiça? Porque as pessoas experimentam tanta angústia, ansiedade e incompletude? Se Deus é bom e tem um plano maravilhoso, por que razão o mundo está em colapso e os indivíduos, em geral, sentem que falta algo, mesmo quando têm a casa repleta de bens ou conhecimento como nunca tiveram antes?

A razão final para o desequilíbrio é que a humanidade se distanciou de Deus, está desconectada da fonte de vida. É a ligação com Deus que permite o reencontrar-se pessoal, o reequilíbrio, de modo que a pessoa que existe debaixo do governo amoroso de Deus redescobre o sentido para a sua vida.

Foto: Alexei Scutari/Unsplash

O distanciamento de Deus tem como consequência a perda de rumo para a vida. A Bíblia define o problema básico do ser humano, e da humanidade no seu conjunto, como pecado. Pecado é errar o alvo, ou seja, o ser humano alienado de Deus não consegue atingir os propósitos para os quais foi criado, tanto no nível pessoal, como nas dimensões familiar e social.

Assim, o belo plano de Deus para a humanidade, por causa da desconexão com Deus mesmo, e da desorientação daí resultante, não é desfrutado pelas pessoas. Pior, ao invés de um mundo ordenado na base do amor, vivenciamos um mundo marcado por forças destruidoras.

A essa altura você já deve estar pensando que a solução óbvia é a reconciliação com Deus e a vida segundo os seus bons planos. E é isso mesmo. Isso nos leva a uma outra questão: como reconectar-se com Deus e discernir seus caminhos para as pessoas e a humanidade?

Há muitas ideias no mundo a esse respeito e não temos espaço para detalhar nem as principais. A própria existência de tal noção na humanidade identifica uma grande sede do sagrado. As religiões, em geral, são a tentativa humana de religar-se com Deus, de baixo para cima. Observa-se grande esforço nesse sentido e muita frustração na prática.

A boa notícia é que Deus veio ao encontro da humanidade perdida. Deus, em Cristo, entrou na triste história humana e agiu decisivamente para superar e vencer o pecado que faz separação entre as pessoas e Deus.

Por meio de Jesus, especialmente da sua morte na cruz, Deus providenciou o perdão dos pecados e, por meio da ressurreição de Jesus, oferece a possibilidade de uma nova vida, a vida que Deus planejou.

Assim, o Evangelho, a Boa Notícia, é que o Deus que o criou ama você e deseja realmente abençoar a sua vida; Ele não desiste de você apesar do problema do pecado, antes, Ele proporciona uma solução pela morte e ressurreição de Jesus para que seu passado possa ser tratado e seu futuro transformado; Ele graciosamente convida você a aceitar o Seu amor, o Seu perdão e o Seu projeto para que a sua vida seja renovada e alcance aquela completude que cada um anela no coração.

Como você reagirá a essa oferta gratuita? Alguns reagem com ceticismo e desdém. E a vida pessoal e social continuará a mesma. Nada será diferente se continuarmos as fazer as coisas como sempre. Porém, se desejamos mudança, transformação e renovação pessoal e social é preciso responder ao convite de Deus com fé e arrependimento. A resposta que Deus espera é arrependimento (reconhecimento que a vida distante de Deus, com todos os seus desdobramentos, é fora do propósito divino e desejo de reconciliar-se com Deus) e fé (confiança no poder de Jesus para perdoar e conceder nova vida).

Que Deus abençoe a sua vida e ilumine seu entendimento, para que você abra seu cora­ção e experimente o amoroso plano de Deus para sua existência. Há uma linda jornada pela frente de restauração e renovação espiritual na companhia de Jesus.

Christian Gillis

A COMUNICAÇÃO NO CASAMENTO

O casamento é um relacionamento complexo onde duas pessoas formadas de modos significativamente diferentes – família, escola, tradições e até mesmo cidades ou países – vão viver juntas até à morte, dividindo alegrias, dificuldades, conquistas e fracassos. O casamento é uma grande oportunidade para, homem e mulher, descobrir mais de si mesmo e do seu cônjuge.

No entanto, muitos relacionamentos entram em falência, precocemente, sem uma verdadeira experiência de crescimento no conhecimento mútuo. Pesquisas sobre as causas da crescente incidência de divórcios têm mostrado que, para além dos motivos de infidelidade, dificuldades financeiras, negligências, dificuldades na criação de filhos ou problemas com a família do cônjuge, a falta de uma boa comunicação com o parceiro ocupa o primeiro lugar.  A dificuldade na comunicação tem sido responsável pelo fracasso na solução de problemas nos mais diversos tipos de relacionamentos.

Foto: Stephane Delval/Unsplash

O ser humano é um ser essencialmente relacional, porque fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. O Deus em quem cremos é trino, havendo perfeita comunhão e comunicação entre Pai, Filho e Espírito.  Deus é o maior comunicador do Universo porque Deus é amor e o seu amor é transbordante. Não cabendo em si, o amor de Deus chega até nós, incessantemente.

Se Deus é amor e se comunica, para crescermos em amor com o cônjuge, devemos desenvolver nossa capacidade de comunicação. Amar é comunicar-se bem, é partilhar com gestos, atitudes e palavras tudo de bom com o ser amado.

Em 1Co 14.11 está escrito: “Se eu não entender o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim”. Paulo nos convida a buscar melhor entendimento no falar para exercitarmos o dom maior, o amor. No casamento, quanto mais entendimento da linguagem do outro, maior é a proximidade aos seus significados e o crescimento da intimidade.

Será que nos comunicamos bem? Será que falo para ser entendido? E quanto à disponibilidade para escutar o cônjuge? O amor que sentimos é expresso de modo transbordante?

Para que a comunicação seja eficaz é preciso entender algo simples, mas importante. Entre quem emite e quem recebe uma mensagem pode haver muitos obstáculos causadores de “ruídos” impedindo a mensagem de chegar bem ao seu destinatário. Dentre eles, vale destacar alguns bastante frequentes:

  • Opiniões e as atitudes do receptor – a pessoa só consegue captar o que lhe interessa, ou molda a mensagem fazendo-a coincidir com a sua opinião;
  • O egocentrismo, posição que impede de assimilar o ponto de vista de quem fala e leva o “ouvinte” a rebater até sem escutar;
  • Percepção distorcida e incompleta da outra pessoa, imagem superficial, receios quanto ao aprofundamento;
  • Projeção no outro de expectativas e padrões de relacionamento a partir de experiências internas;
  • Competição, que comumente não leva ao diálogo, onde ninguém ouve ninguém por disputa de pontos de vista;
  • Frustração e mágoa como barreira emocional à escuta – mutismo.

Observa-se que todos os obstáculos citados acima derivam-se de causas internas, egocêntricas, tomando-se o próprio “eu” como referência.

Uma condição essencial para viver bem com o outro é sair de si mesmo e conhecê-lo, buscando compreender como percebe e sente a realidade, colocando-se no seu lugar. A boa comunicação entre o casal tem um importante papel nesse conhecimento, possibilitando uma escuta mais verdadeira do outro. À medida em que os cônjuges se entendem melhor, as diferenças entre homem e mulher, manifestas na forma de ver o mundo, de pensar e de agir, deixam de ser obstáculos e passam a ser aliados. Nota-se que muitos problemas que assolam o casamento podem ser resolvidos no dia a dia.  A “guerra dos sexos” perde o sentido. Na verdade, não são as diferenças entre um homem e uma mulher que os separam, mas os juízos de valor que fazem dessas diferenças.

Quando nos tornamos bons escutadores, surge a consciência e a apreciação da grande realidade humana: a de sermos diferentes por sermos ÚNICOS! O relacionamento se enriquece à medida em que os dois podem expressar sua verdadeira individualidade, sem medo de rejeição, preconceitos ou julgamentos preestabelecidos. Essa compreensão abre as portas para o respeito, a consideração e a aceitação da pessoa como ela é, construindo um relacionamento de felizes diferenças!

Saber escutar alguém é uma forma especial de manifestar amor, pois implica atenção e cuidado, compreensão e aceitação. Saber escutar estimula o outro a se comunicar. Quando o casal alcança maior liberdade de expressão de suas vivências e sentimentos, há um ganho em companheirismo e cumplicidade. O relacionamento a dois floresce a cada novo momento em apoio mútuo, com o objetivo de superar as dificuldades, de edificar o outro, de vê-lo crescer e ser feliz.

Fátima Brasil

ERGAMOS OS OLHOS

“Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa” (Jo 4.35).

É muito interessante observar que Jesus colocou perante seus discípulos a necessidade de erguerem os olhos para verem os campos brancos para a colheita, depois da experiência com a mulher samaritana. Ele usou também a colheita do trigo, como ilustração, mostrando-lhes que para a colheita de almas não tinham de esperar por mais nada, pois os campos já estavam brancos, haja vista a conversão da mulher samaritana.

No entanto, havia a necessidade de eles erguerem os olhos de seus preconceitos raciais para verem a samaritana como alvo de sua missão, pois achavam que uma mulher desclassificada como aquela não merecia ouvir as boas novas da salvação.

Foto: Benjamin Davies/Unsplash

Meus queridos leitores, nós, igualmente, precisamos erguer os nossos olhos de várias situações que nos impedem de ver os campos prontos para a colheita. Precisamos erguer os olhos de nossas tradições, pois nos acomodamos em nossos cultos entendendo que nós não temos de fazer nada para a conversão dos perdidos, pois aqueles que Deus quiser converter Ele o fará sem nenhuma participação nossa. Basta que sejamos crentes fiéis, e que compareçamos dominicalmente em nossos cultos, que Ele mandará os peixes para o nosso barco. Precisamos também erguer os olhos dos nossos projetos pessoais. Quantos de nós colocamos a missão de embaixadores do Reino no finalzinho de nossa lista: se der tempo; se for conveniente; se não atrapalhar os meus negócios; se não atrapalhar o meu futebol; se não me deixar mal na fita, etc., etc. Quando Jesus fala de buscarmos o Reino de Deus em primeiro lugar, Ele está deixando claro que a nossa missão tem de estar acima de todos os nossos interesses.

Temos de erguer os olhos ainda dos nossos medos. Quantos têm ficado paralisados na missão de reconciliar as pessoas com Deus pelo medo da rejeição por parte de amigos e parentes, ou medo da humilhação por estarem se identificando com os “crentes”. Percebo que muitos, quando desafiados a proclamar, escolhem fazê-lo aos estranhos, pois destes não se sentirão rejeitados, nem diminuídos. Procuram também sempre pessoas menos cultas, ou mais pobres, pois pensam que estas não terão argumentos para refutá-los e nem tampouco zombarão das suas crenças.

No entanto, devemos lembrar sempre que a nossa preocupação primeira deve ser com os nossos. Quando Jesus expulsou os demônios do gadareno, este queria continuar em sua companhia, mas Jesus não permitiu, e disse-lhe: “Vai para tua casa e para os teus.  Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti. Então ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam” (Mc 5.19-20).

À semelhança do gadareno, muitos de nós queremos apenas a companhia de Jesus: os cultos abençoados, a comunhão dos irmãos, os louvores, as mensagens da Palavra, etc. Mas Jesus está nos dizendo: “Vai para tua casa, para os teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor tem feito por ti”.

Ivênio dos Santos

ESPERANÇA: A ÂNCORA DA ALMA

O livro de Hebreus poderá ser resumido em apenas uma frase, sem perder a sua essência: CONSIDERE ATENTAMENTE O SENHOR JESUS!

O Senhor Jesus entrou uma vez e para sempre no Santo dos Santos e assim tornou-se o nosso Sumo Sacerdote eterno. Ofereceu-se como sacrifício vivo por nós, ressuscitou e vive eternamente para interceder por nós.

O sumo sacerdócio de Cristo parece ser o tema mais importante da carta aos Hebreus. E por que o seria? Penso que o autor nos dá uma boa resposta:

A âncora da nossa alma é a esperança e, como âncora, segura e firme, está baseada no sumo sacerdócio de Cristo. Ele nos fala duas vezes em esperança no capítulo 6:  a primeira, no versículo 11, exortando-nos a sermos diligentes, cuidadosos, zelosos, para a plena certeza de esperança. Temos um papel aí definido. A segunda vez, no versículo 18, mostrando que todo o alento, o conforto, a firme consolação, o encorajamento, enfim, vêm da promessa de Deus, sob juramento. Então devemos lançar mão da esperança proposta. Ela é a âncora da nossa alma.

Foto: tan4ikk/Depositphotos

Às vezes, tentamos ancorar a nossa alma em muitos elementos (conhecimento, casamento, outras pessoas, profissão, dinheiro e até religiosidade). Entretanto, o que de fato estabiliza a nossa vida, é a esperança que temos na pessoa de Cristo, nosso Sumo Sacerdote.

A âncora, dentro do navio, não pode estabilizá-lo! Pois a nossa esperança não está em nós mesmos. Ela está “segura e firme” e penetra além do véu, isto é, está lançada no sacerdócio de Jesus.

Encontramos, no capítulo 7 de Hebreus, cinco fundamentos do sacerdócio de Cristo:

1º fundamentoJesus é Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Isso quer dizer, eleito segundo o conselho de Deus. “Deus não vê como vê o homem “ (1Sm 16.7). Em toda a história da humanidade existem muitos Melquisedeques. Pessoas que, ouvindo o chamado de Deus, atendem. Pessoas a quem Deus se revela. Essa é, para mim, a ordem de Melquisedeque. A ordem daqueles que são estabelecidos pelo Deus Altíssimo.

2º fundamentoO sacerdócio de Cristo é superior ao Levítico. Levi é filho de Jacó (Israel), portanto, quarta geração a contar com Abraão. Como Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque, o sacerdócio levítico (na pessoa de Abraão), prestou honras ao sacerdócio de Cristo (na pessoa de Melquisedeque). E mais, Melquisedeque abençoou a Abraão. Quem abençoa é o pai ou o filho?

3º fundamentoO sacerdócio de Jesus é eterno. Em Hebreus 7.17 encontramos: “Porquanto se testifica. Tu és sacerdote para sempre…”. Jesus ressuscitou, e vive eternamente e intercede pelos santos, aleluia!

4º fundamentoO sacerdócio de Jesus é completo e definitivo. Ver Hebreus 7.27 e 28; 9.11 e 12.

5º fundamentoO sacerdócio de Jesus Cristo é sacerdócio de justiça e paz.

A palavra Melquisedeque quer dizer rei de justiça. E ele é rei de Salem, que significa paz. Não existe paz sem justiça (Rm 5.1-5; 5.18)

Conclusão: A esperança é a âncora da alma. Deve ser buscada diligentemente para a sua plena certeza. A esperança está ancorada em Jesus, o Sumo Sacerdote eterno.

Robertson Brasil

A LIBERDADE CRISTÃ

O apóstolo Paulo trata a questão da liberdade postulada pela acolhida do Evangelho de Jesus Cristo, primeiramente, em sua carta aos Gálatas. Instiga a percorrermos, no desafio de estudar essa carta, o trajeto delineado pela pergunta crucial: livres de que e para quê?

Elaborando um projeto de curso sobre a carta aos Gálatas, lembrei-me de que, em “Os irmãos Karamazov”, Dostoiévski relata sobre o Grande Inquisidor, que observa e manda prender Jesus, que havia voltado à terra e andava entre as pessoas. Diante de Jesus, o prisioneiro silencioso, o inquisidor profere sua acusação: “Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. E em lugar de pacificar a consciência humana de uma vez por todas, mediante sólidos princípios, tu lhes ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças humanas: a liberdade. Agiste, pois, como se não amasses os homens. […] Em vez de te apoderares da liberdade humana, tu a multiplicaste e, assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade…”.

Foto: Dawid Zawila/Unsplash

Recordei-me, ainda, de Rubem Alves ao afirmar que “os homens preferem as gaiolas ao voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas”.

Ao som reverberado pelas palavras de Dostoiévski e Rubem Alves, ouvimos, na pele, com os olhos e ouvidos, que a liberdade amedronta, pois nos responsabiliza; preferimos a escravidão, as normas que erigem o legalismo como “tábua de salvação” e isenta-nos da escolha responsável apresentada pelo apóstolo como prerrogativa da acolhida do Evangelho de Jesus.

Nesse desafio temido, é apreensível ao estudo do escrito Paulino aos gálatas, que acolher a fé cristã é passar por um radical processo de libertação para tomar um caminho responsável de liberdade. É a emancipação da submissão a “deuses que na realidade não o são”, da escravidão ao domínio dos “elementos do mundo”, do peso condicionante das forças do egocentrismo (da “carne”) e das amarras de observâncias erigidas em princípio de salvação, ou seja, da lei, dos códigos de condutas impostos como autenticação da fé. É por graça, tornar-se pessoa capaz de amar, isto é, de se colocar a serviço dos outros.

Para tanto, um dos eixos teológicos centrais da carta aos Gálatas é a justificação pela fé, e não pelas obras da Lei. Por conseguinte, outro elemento importante é a fé como adesão à iniciativa salvífica do Pai, mediada pela obediência do Filho e pela ação do Espírito Santo. O cristão, acolhendo e aderindo a Cristo, participa gratuitamente da filiação divina que se expressa concretamente na vivência da liberdade em Cristo, que consiste em deixar-se conduzir pelo Espírito, isto é, ter uma vida pautada pelo amor e serviço que conduz a uma nova prática de vida, a ser nova criatura. Na leitura da carta, somos, portanto, interpelados com o desafio de acolher o convite a fazer uma revisão de vida a partir de questões como: onde está a motivação fundamental que dirige nossa vida cristã: numa série de observâncias mecânicas e ritos? Estamos realmente dispostos a uma educação para a vivência da liberdade responsável ou pautada no estabelecimento de normas absolutizadas e divinizadas que escravizam e esterilizam a fé?

Flávia Luiza Gomes

EDUCAÇÃO DE FILHOS NA PERSPECTIVA DE DEUS

Ao pensarmos na educação dos nossos filhos, na perspectiva cristã, devemos considerar uma premissa claramente revelada na Palavra de Deus. Há uma parte que é de Deus e outra que é dos pais. Em 2 Coríntios 5.18-21 temos a seguinte narrativa:  “Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus. Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”.

Foto: Tim Mossholder/Unsplash

A partir desse texto podemos compreender que o Senhor realizou sua parte ao promover a reconciliação do homem consigo por meio do sacrifício expiatório do Cristo. A palavra de Deus também revela em João 16.7-8, em uma afirmação memorável de Jesus Cristo, que o Espírito Santo viria para convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo, assim que Ele retornasse ao Pai. A compreensão de qual é a parte de Deus continua sendo ampliada em Efésios 2.8 com a revelação de que a salvação é pela Graça, por meio da fé, e que é um dom de Deus. Em Romanos 10.17 temos mais uma maravilhosa notícia: que essa fé vem pelo ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo. A parte mais complexa depende exclusivamente do Senhor. E qual é a parte dos pais nessa missão? “… E nos deu o ministério da reconciliação”. A tarefa dos pais é anunciar a mensagem da reconciliação. Portanto, segundo o texto de 2 Coríntios 5.18-21, nós, pais, “somos embaixadores de Cristo”. É como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio: “Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus”. Nossa missão é ainda mais elucidada em 1 Pedro 2.9: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Para que possamos ampliar a compreensão da complexidade de nossa missão, consideremos algumas afirmativas da Palavra de Deus sobre quem são os nossos filhos. Romanos 3.23 afirma: “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”, portanto nascem em estado de queda. Em Provérbios 22.15a, a Palavra nos afirma que a criança nasce com a tendência para praticar o mal: “A insensatez está ligada ao coração da criança”.

A verdade revelada nos textos acima, nos coloca em uma zona de desconforto, pois a paternidade é um desafio para a qual podemos nos sentir despreparados. Porém, o conforto vem quando lembramos que não estamos sós nessa missão.  A boa notícia é que o autor da vida, é também o autor de um manual de orientação que traz os padrões éticos necessários para uma educação bem-sucedida: a Bíblia. O apóstolo Paulo, diante do mesmo sentimento de incapacidade para realizar o seu ministério, nos apresenta uma palavra de conforto em 2 Coríntios 12.9-10: “Mas ele me disse: Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”.

Outra boa notícia está em Gênesis 1.27: “criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Fomos criados com semelhança mental, moral e social com Ele. Por isso, nossos filhos são capazes de pensar e escolher, fazer escolhas racionais. Têm uma consciência. Deus é santo, levado pela própria natureza para resistir ao mal. De forma similar, nossos filhos não são moralmente passivos, mas estão dispostos a distinguir o que é certo do que é errado, o bom do que é mau. Podem saber escolher o que é certo. Precisamos ensiná-los.

Edson Rezende da Rocha

TRANSFORMANDO GANÂNCIA EM GENEROSIDADE

Jesus conta muitas parábolas. Em Lucas 12, conta a Parábola do Rico Insensato. Nesta, ensina que precisamos ficar de sobreaviso contra todo tipo de ganância, pois a nossa vida não consiste na abundância dos nossos bens. Logo, fica evidente que Deus deseja que desenvolvamos uma relação saudável com os bens materiais. Para tal, precisamos considerar três advertências.

A ganância é uma enfermidade espiritual

Jesus está cercado por uma multidão e alguém diz: “Mestre, dize a meu irmão que divida a herança comigo”. Espera-se de um mestre tanto o conhecimento da lei quanto os pareceres legais. E Jesus responde: “Homem, quem me designou juiz ou árbitro (“partidor”) entre vocês?”. Semelhantemente, espera-se do juiz uma sentença e, do partidor, a execução dessa sentença. Assim, voltando-se para os demais presentes, Jesus declara: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Todos sabemos que a ganância é o desejo ávido e insaciável de ter sempre mais. Assim sendo, a advertência de Jesus é exatamente contra esse desejo. Isso porque a ganância é uma enfermidade espiritual terrível. Naquele contexto, a expressão “tomem cuidado!” era utilizada para os cuidados médicos. Aqui surge uma importante pergunta: por que é necessário afastar-se ou proteger-se da ganância? A resposta de Jesus é muito clara: porque a vida que realmente importa não consiste na quantidade de bens que se acumula.

Foto: Michael Longmire/Unsplash

Uma vez que estamos em uma zona de epidemia de ganância, precisamos tomar muito cuidado. A mensagem do nosso entorno é: trabalhe mais, ganhe mais, acumule mais, consuma mais e, finalmente, você será reconhecido como alguém bem-sucedido. O problema é que se vivermos assim, jamais nos realizaremos e nos pacificaremos. Isso porque ou estaremos inquietos para adquirir coisas novas ou estaremos enjoados das coisas que já adquirimos. Mais cedo ou mais tarde, precisaremos decidir a quem daremos razão: à mensagem do nosso entorno, que é ilusão e morte, ou à mensagem de Jesus, que é realidade e vida.

A acumulação para si mesmo é o sinal dessa enfermidade

Tendo anunciado o princípio espiritual, agora Jesus o ilustra usando a Parábola do Rico Insensato. Ele diz: “A terra de certo homem rico produziu muito. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’. Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens’. E direi a mim mesmo: ‘Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?’”.  A terra produz por si mesma. O dono dessa terra é um homem rico. Ele já tem e ainda terá mais do que o suficiente para viver. A perspectiva de ter ainda mais lhe traz um problema: o que fazer com o excedente? As duas alternativas são: acumular ou partilhar. O homem rico faz opção de acumular. Então, a acumulação para si mesmo é o sinal da enfermidade. Ele quer proteger e desfrutar dos seus bens, quer segurança e bem-estar. Mas Deus declara que a opção de acumular é uma expressão de loucura. É loucura porque o homem rico não tem domínio sobre a própria vida.

Quando acumulamos riquezas, estamos em busca de segurança e de bem-estar. Porém, Jesus nos chama de loucos. É loucura confiarmos mais em nossos bens materiais do que em nosso Deus. É loucura pensarmos que, porque temos muitos recursos financeiros, podemos controlar o nosso futuro. É como nos alerta o Eclesiastes (5.10): “Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido”.

A partilha com o próximo é o tratamento dessa enfermidade

Depois de anunciar e ilustrar o princípio espiritual, Jesus conclui com as seguintes palavras: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus”. Aqui, ele aprofunda o princípio espiritual. Guardar para si riquezas, já sabemos o que é. Agora, o que é ser rico para com Deus? Jesus não explica. Só descobrimos o que é ser rico para com Deus quando discernimos o contraste presente no texto. Ou seja, ser rico para com Deus é o oposto de acumular para si riquezas. Portanto, ser rico para com Deus é partilhar o que se tem com o seu próximo. A partilha com o próximo é o tratamento da enfermidade. Paradoxalmente, quem partilha é rico.

Ouvindo atentamente essas palavras de Jesus, descobrimos que a ansiedade e a ganância são dois lados da mesma moeda. Por ser alguém que deseja controlar o futuro, o ansioso dá lugar à ganância e acumula para si riquezas. Além disso, descobrimos que a fé e a generosidade também são dois lados de outra moeda. Por ser alguém que descansa no cuidado amoroso de Deus, o crente dá lugar à generosidade e partilha o que tem com o seu próximo. Por fim, precisamos responder: estamos guardando riquezas ou sendo ricos para com Deus?

Que Deus nos ajude a ser cada vez mais ricos para com ele!

Luiz Felipe Xavier

IGREJA: LUGAR DE SERVIÇO

Nós , a igreja, fomos redimidos pela graça de Deus. Por meio da fé, nós somos salvos (Ef 2.8). Não há mais nada a fazer para encontrarmos o favor de Deus. É presente de Deus, não é por causa de nenhuma obra que realizamos. O Senhor, por sua graça, nos tornou justos diante dele.

Entretanto, durante a história, muitos irmãos e irmãs tiveram dificuldade de relacionar o discípulo de Jesus, justificado, e a prática das boas obras, a prática do serviço.

Por exemplo, na carta que Tiago escreve aos que haviam fugido da perseguição em Jerusalém, ele afirma: “Você tem fé; eu tenho obras. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras”. Parece que já no 1º século havia dúvidas quanto à dinâmica da fé e do serviço.

O ponto é: não alcançamos a justificação ao praticarmos boas obras. Os que foram justificados praticam as boas obras. Aqueles que foram justificados se dão ao serviço.

Foto: Ake/Rawpixel

Por isso, nós, como comunidade de discípulos, somos lugar de serviço. Deus deseja que entre nós haja a dinâmica do serviço. Que sejamos, como igreja, lugar de serviço. Para nos auxiliar na compreensão do serviço, duas perguntas.

1a pergunta: A quem nós servimos?

A resposta parece óbvia. Nós servimos a Deus. Contudo, o serviço a Deus acontece no serviço ao próximo. Não há outro caminho para servir a Deus se não servindo quem está próximo de nós, porque, em primeiro lugar, Deus é plenamente satisfeito em si. Ele não necessita de nada que poderíamos oferecer, servir a Ele. O nosso serviço não é, literalmente, a Deus porque Ele não tem nenhuma necessidade a ser suprida.

Em segundo lugar, porque o próprio Jesus disse que seria assim. Em Mateus 25.31-46, ao dizer sobre o julgamento das nações, Jesus afirma que o Rei se dirigirá às nações e dirá que houve um tempo em que ele, o Rei, teve fome, teve sede, foi estrangeiro, esteve preso e enfermo e que alguns o serviram. Alguns deram de comer, de beber, serviram, foram visitá-lo. Enquanto outros não. A questão que incomoda aqueles a quem o Rei se dirige é: “Quando foi que vimos o senhor assim?”. Jesus, afirma que o Rei dirá que quando viram o próximo assim, viram o Rei. O Rei diz que o que eles fizeram ou deixaram de fazer a algum dos seus menores irmãos, deixaram de fazer ou fizeram ao próprio Rei. A nossa prática de serviço ou nossa negligência tem relação com o Senhor, com o Rei. Servimos a Deus servindo os seres humanos que estão ao nosso alcance.

Ao falarmos de serviço, não se trata exclusivamente de salvar a alma do ser humano que está próximo de nós. Isso é importante e faz parte do nosso horizonte, da nossa atuação enquanto discípulos de Jesus. Mas só é possível “salvar a alma” de alguém se houver alguém diante de nós.

O serviço passa por cuidar do ser humano em suas necessidades aqui. Porque é aqui, neste corpo, que existe a possibilidade de experimentar Deus. É no corpo. Se o corpo morrer e desaparecer, morre a possibilidade de conversão, de comunhão, etc.

A igreja de Jesus é local de serviço integral, pois:

  • nós somos discípulos de Jesus e servimos a Deus Pai;
  • à semelhança de Jesus, não viemos para ser servidos, mas para servir;
  • o serviço a Deus só é possível servindo os que estão próximos de nós.

2a pergunta: Quem completa a obra do nosso serviço?

O nosso serviço é reflexo do amor de Deus derramado em nós. O nosso serviço é parte do nosso processo de imitação de Jesus que veio para servir e não para ser servido.

Nossa função é o privilégio de servir. O próprio Deus há de terminar, de concluir a obra, o serviço. É responsabilidade da Trindade, do nosso Deus, concluir a obra.

No relato dos Atos dos Apóstolos, conta-se da igreja primitiva que servia. Igreja que se reunia em comunhão, para se alimentarem juntos, igreja onde não havia nenhum necessitado, que proclamava o evangelho. Quer prática de serviço mais radical do que essa? Serviam ao ponto de não haver necessitados no meio deles.

O resultado era que aquela igreja, local de serviço, contava com a simpatia do povo! E “o Senhor ia acrescentando, todos os dias, os que iam sendo salvos”. Aquela igreja, sendo local de serviço, era o local de reunião daqueles que o Senhor tornava justos, justificados.

Nós devemos servir sem a preocupação (não sem a intenção) de converter alguém. A igreja de Jesus é local de serviço integral, pois, assim, podemos ser meio para que Deus alcance e justifique outros que serão acrescentados à nossa comunhão.

Que o Senhor, por sua Graça, nos ajude a ser uma igreja que serve.

André Ribeiro de Oliveira

PROCURAI A PAZ DA CIDADE

Muitas vezes os autores bíblicos usam a figura do peregrino e do forasteiro para referir-se ao cristão e à sua jornada na presente era (“aos eleitos que são forasteiros”; “portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação” e “como peregrinos e forasteiros que sois vos abstenhais das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma” – 1 Pd 1.1; 1.17; 2.11). Somos cidadãos de outra pátria (Fp 3.20). A ideia por trás dessa imagem é que, enquanto aguardamos a volta de Cristo e a irrupção plena do seu glorioso reino, não permitíssemos a diluição da nossa identidade espiritual nem perdêssemos os princípios éticos ensinados pelo Senhor, assimilando costumes e valores estranhos ao reino de Deus, por assumir o mesmo estilo de vida que povos pagãos e idólatras têm, enquanto estamos de passagem entre eles.

Essa bela imagem, entretanto, sutil e gradual­mente – com a clara instrução de não incor­porar práticas incongruentes ao Deus revelado nas Escrituras – foi transformando-se em instrumento para justificar a alienação social. Assim, os cristãos em geral, infelizmente, mantêm-se alheios e distantes dos problemas e desafios que experimentam juntamente com seus vizinhos que ainda não são cristãos, como se aquelas situações não lhes dissessem respeito.

Jeremias, o profeta, viveu anos muito difíceis, assistindo à crise de fé dos judeus, enquanto aconteciam crimes, violência, morte e toda sorte de injustiça, inclusive manipulação religiosa, até o exílio de Judá. Para orientar o povo em meio às suas agruras, Jeremias profetizou sobre a restauração da nação depois de setenta anos de cativeiro e deu instruções para o tempo de intervalo até que a promessa de retorno para a terra prometida se cumprisse.

A agenda para aqueles que estavam em uma terra estranha, cheia de outros deuses e costumes pagãos, era, no mínimo, instigante. Os forasteiros, além de cultivar a esperança de retornar à sua pátria, deveriam trabalhar e orar pelo bem estar das cidades para as quais fossem levados, no interregno entre a sua deportação e futura restauração: “Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao SENHOR; porque na sua paz vós tereis paz” (Jr 29.7). Jeremias não propõe nenhum tipo de ação revolucionária ou subversiva em termos políticos ou militares, mas conclama aqueles que são tementes a Deus, durante o tempo da sua peregrinação, a não perderem a sua identidade (reconhecer a soberania divina, aceitar a disciplina, orar e buscar o shalom — paz) e, ao invés de ter uma postura passiva, de desdém pelo que acontece na sociedade ou de mero espectador, torna­rem-se protagonistas da história, abençoando as comunidades nas quais foram inseridos.

A postura do cristão na sociedade, ou a ética social cristã, é nutrida e robustecida pelo modelo proposto por Jeremias. Em vez de ser assimilado culturalmente, repetindo e reproduzindo os costumes e práticas vigentes na sociedade, o cidadão do reino ora e trabalha pela prosperidade e desenvolvimento das cidades nas quais foi soberanamente inserido por Deus, para ser sal (inibir o mal) e luz (propagar a verdade). Não se advoga nenhum tipo de alienação ou modo de sabotagem. O servo de Deus sempre milita pelo bem e pela paz das pessoas e da sociedade à sua volta, com contribuições significativas e posturas corretas e justas, apesar das diferenças teológicas ou ideologias políticas.

Cooperar com o bem-estar da cidade não é abandonar o sonho e a bendita esperança de habitar a cidade que desce do céu, onde habita a justiça. A esperança de futura libertação não pode servir para entorpecer nossos sentidos e atuação promotora do bem, onde quer que estejamos (condomínio, rua, bairro, empresa, negócios, governo). Ou seja, não devemos aceitar o estilo mundano de viver autocentrados, buscando apenas o nosso bem. Antes, pelo contrário, somos chamados a orar e procurar o bem coletivo. E esse tipo de postura poderá, inclusive, servir de plataforma legítima para testemunho aos povos por onde peregrinamos.

Christian Gillis