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“HONRA TEU PAI E TUA MÃE …”

jul 20, 2014 | Editorial da Semana

O Decálogo, ou, os dez mandamentos, está contido na Lei de Moisés, a Torá, que designa, em lin­guagem coloquial da época do Antigo Testamento, o ensinamento da mãe (Pv 1.8; 6.20; 31.26) e do pai (4.1s) para introduzir seus filhos no caminho da vida e adverti-los diante das ciladas da morte. A palavra “Lei” compromete a compreensão do Decálogo, pois no contexto bíblico é compreendido como ensinamento para a preservação da vida, que, portanto, pode não ser estático e com um fim em si mesmo.

No prólogo, tem-se a autodefinição de Deus que é a libertação dos destinatários: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da escravidão” (Êx 20.2). Implica que a relação com Deus não é expressa através do conceito de domínio, mas de uma liberdade comunicativa outorgada ao ser humano por Deus, sob a qual tudo o mais deve ser avaliado. As instruções para a vida devem ser compreendidas, portanto, a partir dessa revelação introdutória por ser, justamente, a liberdade comunicativa, a temática do Decálogo. Neste viés, a relação com Deus, assim como com os outros, é o escopo das instruções que se seguem ao prólogo.

Com o mandamento “Honra teu pai e tua mãe; assim prolongarás tua vida na terra que o Senhor teu Deus te dará” (Êx 20.12), inicia-se a série dos mandamentos sociais, o que instiga a algumas indagações: por que o mandamento “não matarás”, que é mais importante e muito mais fundamental, não encabeça a série? Por que se separa algo que, supostamente, forma uma unidade temática com a proibição de matar entre os dois mandamentos relacionados com o âmbito da família (honrar os pais e não adulterar)? Contudo, na ordem que seguem os mandamentos, os dois únicos formulados positivamente (santificar o sábado e honrar os pais), ou seja, que exigem um agir determinado em contrapartida aos demais que demandam uma ausência da ação, estão lado a lado, no centro do Decálogo. Bem como, a posição de destaque da honra aos pais não é, certamente, nenhuma casualidade, visto que este mandamento também se encontra relevantemente presente no conjunto das orientações éticas do Antigo Testamento: em todos os códigos legais (Êx 21.15, 17; Dt 27.16; Lv 19.3 e 20.9); nos provérbios da sabedoria (Pv 1.8; 19.26; 23.22; 20.20; 28.24 e 30.11); no profetismo (Ez 22.7; Mq 7.6; Ml 1.6).

A frequência dessa temática e sua posição destacada no Decálogo permitem perceber a grande importância da questão na sociedade do antigo Israel que, num dizer simplificado, trata-se, em seu cerne, do cuidado das pessoas idosas. Não é da relação de crianças com seus pais que se refere, mas do trato dos adultos com os pais idosos. Aos filhos é conferida a função especialmente importante de amparo aos pais que, muitas vezes e de diferentes modos, estava ameaçado por ações negativas elencadas em toda sua drasticidade: bater (Êx 21.25); amaldiçoar (Êx 21.17); desprezar (Ez 22.7); zombar (Pv 30.17); roubar (Pv 28.24); oprimir (Pv 19.26); expulsar (Pv 19.26).

O apelo veemente do mandamento é expressivo no significado da palavra “honrar”, passível de apreensão em textos do Antigo Oriente que usam o vocábulo não apenas salientando algo espiritual, mas de modo inconteste, incluindo concretamente o amparo material que abarca o vestuário e alimentação até à morte e, depois disso, um sepultamento digno. Igualmente significa no Decálogo, abarcando ainda um comportamento respeitoso para com os pais e um tratamento digno, que, apesar do declínio da força de vida, corresponda à posição como pais.

Enfim, visto na relação com o prólogo, o mandamento não só corresponde à sua posição como pais, mas também à sua posição de israelitas libertos por Deus. Trata-se, pois, de garantir às pessoas, que por sua idade não conseguem mais trabalhar a terra, uma vida condizente com seu status de libertos por Deus. Elas não conseguem mais aproveitar, por si próprias, a liberdade e a terra na qual a liberdade se baseia. Sua liberdade, proporcionada por Deus tanto a elas quanto a seus filhos, só se realiza ainda através do comportamento dos filhos. O mandamento regulamenta a transmissão da liberdade através da corrente das gerações até seu elo mais fraco.

A oração subordinada indica as consequências reais e óbvias subjacentes ao mandamento: os dias sobre a terra cultivável (adama) concedida por Deus dependerão de como os filhos se comportarem em relação aos pais. Com isso, coloca-se diante dos destinatários de ontem e de hoje, eu e você, o próprio destino futuro.

Flávia Luiza Gomes

 

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