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“A CARREIRA OCUPOU O ESPAÇO DA RELIGIÃO”

set 21, 2014 | Editorial da Semana

A sensação de estar ocupado o tempo inteiro é uma epidemia social. Mas por que não ter tempo para nada se tornou um símbolo de status? Quais são as consequências mais profundas de viver uma rotina sobrecarregada? Confira trechos da entrevista que Brigid Schulte (casada, mãe de dois filhos e repórter no jornal The Washington Post há 15 anos) concedeu a EXAME.com.

Significado do trabalho

No passado, precisávamos do trabalho para sobreviver. Foi assim durante toda a história da humanidade. Estávamos sempre preocupados em garantir as nossas necessidades básicas. Isso mudou drasticamente. Agora procuramos no trabalho um sentido para a vida. Para muita gente, a carreira responde a diversas questões existenciais, e ocupou o lugar da religião na hora de atender a dúvidas como “Quem sou eu?”, “Por que estou aqui?” ou “Que diferença faço para o mundo?”.   O trabalho adquiriu um significado muito poderoso. Hoje, ele tem menos a ver com a luta pela sobrevivência, e mais com a busca por identidade.

Sentido do lazer

Quando a humanidade ainda estava preocupada em sobreviver na natureza, era muito difícil ter lazer. Mas os raros momentos de lazer eram justamente aqueles em que conseguíamos imaginar, criar e sonhar. Não foi enquanto estava caçando que o homem inventou a roda. Quando está preocupado com a sua próxima refeição, você não tem tempo de ter ideias muito brilhantes! O que quero dizer é que os momentos de ócio foram muito importantes historicamente para o desenvolvimento da própria civilização.

Lazer com culpa e vergonha

Existe a sensação de que você não pode ficar sem fazer nada. Em muitos países, existe um culto muito grande à exaustão e ao trabalho exagerado. As pessoas usam esse excesso como uma espécie de medalha de honra. O que escapa a muita gente é que, se você trabalhar o tempo inteiro, mesmo amando o que faz, corre o risco de cair em estafa – o que acaba transformando você num profissional pior.

Mudanças na cultura que valoriza a falta de tempo

Se analisarmos a questão globalmente, temos algumas pistas. Os dinamarqueses têm bastante tempo livre, comparados ao resto do mundo. Como eles conseguem? Bem, na Dinamarca há leis que preveem um período curto de trabalho, mas também há uma questão cultural. Eles entendem que, se você não consegue terminar o seu trabalho em 30 e poucas horas por semana, você é ineficiente. O que importa é a performance, não o número de horas passadas no escritório. Em outro país nórdico, a Suécia, todos tiram férias coletivas por um mês, durante o verão. É uma política pública, que eles chamam de “restauração coletiva”. Funciona muito bem. O desafio é, de alguma forma, tornar aceitável que muitas pessoas tirem férias ao mesmo tempo. É uma expectativa bem alta, eu reconheço, mas é uma ideia interessante para se ter em mente.

Tecnologia e lazer

Acho que a tecnologia é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Na década de 1950, uma das grandes promessas da indústria era fazer as donas de casa ganharem tempo com a ajuda dos eletrodomésticos. Mas veio a publicidade e disse: “Agora que você tem todos esses aparelhos eficientes, tudo tem que ser ainda mais limpo!”. Então o padrão de exigência por limpeza aumentou muito, anulando aquela suposta economia de tempo. Esse exemplo esclarece muito do que vivemos hoje. Vamos pensar no e-mail. Ele foi feito para tornar nossa comunicação muito mais rápida, fácil e descomplicada. Mas o que aconteceu? Hoje recebemos milhares de e-mails por dia, e grande parte deles é lixo. E não conseguimos desligar.

Família ou vida profissional

Eu já fui vítima dessa armadilha, e eu tenho evitado recair nela. Prefiro me ver como um ser humano autêntico, completo. Você é mais do que só o seu trabalho ou só a sua família. Se você trabalhar com bom senso e inteligência, consegue ter uma performance excelente sem precisar “se matar” por causa disso. Você é capaz de chegar em casa num horário decente e ter tempo suficiente para a sua família.

Conselho ao sobrecarregado

O mais importante é perceber que você não está sozinho. Eu me senti solitária por muito tempo. Mas a verdade é que todos são pressionados a trabalharem demais, a serem os melhores pais e a estarem sempre ocupados. Quando você está se sentindo sobrecarregado no dia a dia, é preciso parar, respirar fundo e reavaliar a sua situação. Aquilo que nós achamos que precisa ser feito agora, neste minuto, muitas vezes pode esperar. Procure se perguntar: “Por que estou fazendo essa escolha? Isso é importante para mim? De quem é essa expectativa?”. É importante perceber as forças externas que atuam sobre as suas decisões, e questioná-las.

Aprendizado quanto ao uso do tempo

Sim, sou otimista. É claro que faz parte da natureza humana essa necessidade de se ocupar constantemente. A perspectiva de morrer um dia é muito dura para nós. Então preenchemos os nossos dias para não ter que pensar nisso.Mas, ao perceber que a sua vida não vai durar tanto, você muda as suas escolhas, usa o seu tempo para o que é mais importante. Tenho esperanças de que conquistar essa sensibilidade é possível.

Para ler a entrevista completa, acesse:

http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/a-carreira-ocupou-o-espaco-da-religiao-diz-autora

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